Primeiro poema neo-utopista

Eu observo, entristecido,
o caminho espúrio
dos artistas que enveredam
por escolhas egóicas

Nenhum deles se importa
em admitir sua conduta
como vendida ou fóbica                 ilógica
porque lhes beneficia a dissuasão hipócrita
                                                          anárquica

Ninguém admitirá que foi ruim
Ninguém irá comprazer-se dos sinceros
Ninguém quererá refletir sobre o tema

e, se dizem, “todo poder às coquetes!”,
é porque cooptarão os oportunistas!
enquanto a tudo assistirá o público
manipulado, traído, iludido e perdido…

…aos poucos.

A Arte Negativa consiste na crítica neo-utópica ao quase incontrolável desejo do artista de ser cooptado pelo reconhecimento e pela vontade de poder pura. Ela é um fenômeno que surge de fissuras na normalidade social, que se alargam conforme são alimentadas por frustrações, despejando por aí ressentimento: como um buraco negro, que absorve toda a matéria que dele se aproxima, tendo como resultado newtoniano a excreção de anti-matéria. Quando um personagem de desenho animado rodopia e para, tonto, no vácuo, atrás de um carro que acabou de ultrapassá-lo, temos uma metáfora para a Arte Negativa. O carro acelerando é uma vanguarda; o vácuo é o motivo da Arte Negativa; e o personagem perdido é o artista – ou o aspirante a artista, ou, às vezes, o aspirante a artista transformado em público – que caiu nesse vórtex dos que ficaram para trás e dos invejosos; porque ela é um vórtex altamente atrativo, gerado pelo lado fraco do enviesamento, que ela mesma representa. Ela se forma com o afastamento dos meios de afirmação do gosto dominante e das estratégias de legitimação das artes do tempo presente; e, por isso, ela é soturna, enigmática, psicótica, recalcada, como um coringa, que aparece, odioso e satírico, atrás de portas, que se multiplicam numa sala escura de um possível sonho ou pesadelo, sem que nunca o alcancemos, convertendo-se, ele – como esse tipo de arte –, em uma paranóia.

A Arte Negativa, de início, coloca-se como evidenciação do inconveniente injusto ou do funcionamento precário de um assim chamado “sistema de arte”. Mesmo que cumpra apenas esse papel ao primeiro contato, essa forma de arte, em um segundo momento, desenvolve-se, para subverter os valores do trágico e do revolucionário do espaço social artístico no qual ela se insere. Digamos, portanto, que ela se insira como crítica a um statement de arte pura moderna. Ela tenderá a criticar tanto a sua relação com o público, quanto a falta de aplicação política da obra. É importante pensar que a Arte Negativa costuma emergir em momentos de conservadorismo, enquanto a arte pura vanguardista, por vinculada ao entretenimento, mesmo que refinado, se acomoda em tempos de estabilidade e de governos que prezem pelo bem-estar, como esquerdas democráticas e liberalismos progressistas. 

A Arte Negativa pode ter um teor didático e pode privilegiar a autonomia das artes visuais e da literatura em relação às artes da cena. O conservadorismo político, tacitamente opressivo, e a História da Arte Moderna facilitam, atualmente, o acesso à Arte Negativa, por inevitável necessidade de politização das gentes, refletida, na arte, na lógica antitética de inovação da Arte Moderna; e, também por causa disso, a Arte Negativa sempre procurará inserir-se como o centro da atual História da Arte, para transformar a arte em um meio de atuação política. Nesse sentido, a Arte Negativa pode aproximar-se do Neo-concretismo e do Modernismo, por querer disputar, com aqueles que pleiteiam o seu legado, o seu público, e atraí-lo para o seu vórtex. Ela é como uma resposta indignada ao amansamento, pelo toque, do injusto transformável, por permanecer tudo imóvel justamente por sua docilização. Assim sendo, ela quer relembrar a política por trás da Bossa Nova, querendo-a à l’inverse! A Arte Negativa quer fazer o público dos então herdeiros prováveis da arte virarem as cabeças para trás por provocação, por direito e necessidade, histórica e social.

Kazimir Malevich, 1915

A princípio, a cor da Arte Negativa é o preto, o preto de Malevich. A Arte Negativa é descendente dele, e, consequentemente, uma vez nela, há que se cercar de certa responsabilidade. Enquanto conceito, aquilo que ela emite por seus demiurgos pode torná-los odiados – ou apenas mal-compreendidos –, porque o que eles poderão vir a falar provavelmente tocará o que hoje costuma ser interpretado como crime contra a honra. Assim, os professantes de tal arte tenderão a serem poucos e a surgirem das brechas que a acumulação de capital em qualquer faceta gera na estabilidade social, ocasionando crise: ela é uma arte de poucos, porque essas crises só recaem sobre os marginalizados dentro das mônadas de disputa social, passíveis previamente de exclusão, operadores em desvio relativo ao meio. Tendo isso em vista, seus adeptos tendem a mudar conforme as estratégias de cooptação dos polos de poder vigentes; são membros transitórios.

A Arte Negativa só poderia ter vindo depois dos anos 80 e de sua geração de artistas, como um protestantismo pelos valores perdidos ao longo dos anos de aceitação da fama: quase como a crítica grunge à glamourização do Punk; e, dessa forma, ela é, em algum sentido, glauberiana. Seu glauberianismo, portanto, faz a sua forma de expressão, protestante, ser direta, como o Punk que ela visa a recuperar, razão pela qual acaba por ser tida como mal-educada, terrorista. Por prescindir de um objeto artístico, sendo ela um sentimento político, sua atuação direta executa-se no cotidiano, como fazem os sátiros, o que acaba também representando uma condenação ao distanciamento contemplativo alienado das artes positivadas. E, então, entender-se-á, com o estalar de um desengano, que o que ela deseja é gerar o pensamento da arte crítica, para recuperar o horizonte revolucionário às nossas esperanças, denunciando, a partir do espaço social em que se apresenta – o campo social de poder da arte – os mecanismos de emulação, cooptação e geração de valor; para partir para fora do campo da arte, penetrando, total, a contrapelo, na vida social e, por fim, na relação do homem com o biocosmos, almejando a execução completa da engenharia necessária à transformação absoluta da realidade. A Arte Negativa porta a voz do todo-poder da humanidade.

Ela é Negativa porque a reflexão que ela desperta precisa existir nos círculos artísticos, mesmo em momentos que pareçam não dever, fazendo emergir um olhar culpabilizador e acusativo sobre o desfrute inócuo dos artistas. Rompendo a camada supostamente elástica do estetismo social Belle Époque do espaço de arte aburguesado que ela pretende tragar, a Arte Negativa provoca o desejo de implantação de uma socialidade mais justa e, por isso, vê a necessidade de superação do capitalismo – mas seu objetivo final, utópico, se não fosse humanamente possível, por fazer enxergar a possibilidade de transformar todas as esferas da vida, é muito maior: desse sentimento negativo surge a viabilidade da imortalidade, da conquista do cosmos, da juventude eterna, da equiparação com Deus e com a natureza, do prazer expandido, do indivíduo perfeito, emancipado da matéria, absoluto, diferindo-se da aceitação do indivíduo trágico, mortal, hedonista, aburguesado; porque só assim a vida alcançará toda a sua potencialidade. (Seu plano final é reverter o movimento de decadência do cosmos e implantar o futuro perfeito.) Ela quer assumir, portanto, o papel de transformadora do mundo, fazendo subir do Quadrado Negro de Malevich, feito uma pantera, cristais em formatos escultóricos e arquitetônicos, que se desmantelariam a partir de seus tipos, em uma espécie de refração transfiguradora (como um prisma holográfico jamais visto), para esvanecerem-se nas verdadeiras cores do universo, símbolos das mais perfeccionadas formas de vida pós-capitalistas: cores invertidas, novas, em fractais de geometrias indescritíveis, nem mesmo possíveis de serem vistas pelo ser humano atual e mortal burguês.

A Arte Negativa já existe, só precisa ser apontada. E, quando apontada, o que ela pretende causar no público, que ela coage com seus gestos constrangedores, é a percepção de tudo aquilo que a arte em sua forma positiva esconde – para transformar a vida toda. E, nesse sentido, ela é total.

Apesar de tudo isso, e é o que pode retomar o poder falsamente subversivo do hedonismo da arte pura em um momento posterior, a Arte Negativa corre o risco de ser superada, se a crise do sistema for, a contento mínimo, resolvida, e for retomada a estabilidade social. A Arte Negativa só se torna vencedora e deixa de ser trágica quando todo o capitalismo, em suas diversas aparências, não consegue reerguer-se. A sua tragédia, portanto, é a tragédia do bem, da vida e da arte, enquanto a “revolução” da arte pura é a vitória do capitalismo, do mal e da morte.


O texto foi escrito em 2017, mas desejo publicá-lo agora por ver uma relação muito forte com o tipo de arte que estou realizando, uma Arte Total. Como uma espécie de manifesto do meu lançamento como artista em geral, nos moldes propostos por Marcel Duchamp, esse texto me insere na tradição arte-vida, tão cara às vanguardas e, principalmente, ao nosso legado neoconcreto e tropicalista. Minha prática, contudo, consiste em uma feição duplicada, um doppelgänger da arte brasileira: um anti-Caetano warholiano, se me permitem a ousadia. Lanço-me, então, com este texto, um tanto carregado dos meus pensamentos de então: hoje, vejo-me mais dadaísta do que o texto propõe, que entendo ser um ultra-cubismo. O parentesco que pleiteio com Marcel Duchamp não deve, pois, ser, de modo algum, negligenciado da sua leitura.


Antônio Castellar é carioca de 1989 e radicado no Rio de Janeiro, mais precisamente no Edifício Muiraquitã, no Corte do Cantagalo, filho da Tina e do João e irmão do Lucas, Antônio Castellar é artista em geral. Seu trabalho perpassa as mais diferentes esferas da arte, enquanto médium e enquanto vida. Antônio Castellar, em alguns momentos, também se considera escritor.

 

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Publicado por:Philos

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